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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Livro "O Irã sob o chador" desvenda os mitos da cultura oriental

No dia 30 de agosto ocorre, no CineSesc (Rua Augusta, 2075), em São Paulo (SP), o lançamento do livro “O Irã sob o chador” . O evento terá início às 19h30 e contará com sessão de autógrafos das autoras, Adriana Carranca e Marcia Camargos. Haverá ainda a exibição de um curta iraniano seguido de bate-papo com amba

No livro, Adriana e Marcia revelam o caldeirão de contradições de uma nação enigmática, onde a cordialidade do povo resiste como valor num cotidiano de escassas liberdades individuais.

Nos últimos anos, poucos países têm sido objeto de tanto interesse e ao mesmo tempo de tanta incompreensão. O Irã se recusa a encaixar-se nos seus estereótipos. Sua estrutura política não é vertical: o poder é compartilhado entre diversas correntes numa complexa rede de instituições. Seu estrito código de conduta é, em grande medida, apenas aparente, e sua violação, nos espaços privados, mais tolerada do que reprimida. O Irã não é um país árabe, e sim persa, fundado sobre uma das grandes civilizações da Antiguidade, que assimilou e ao mesmo tempo moldou a corrente xiita do islamismo – a partir do casamento de Hussein, neto de Maomé, com uma princesa da Pérsia.

Sobre o livro
Chador é um tipo de manto iraniano, usado para cobrir o corpo feminino da cabeça aos pés. Só o rosto fica à mostra. Parecido com o hábito das freiras católicas, o traje é obrigatório em mesquitas e outros lugares sagrados, e conta com a preferência das iranianas islâmicas do segmento mais conservador da sociedade. Assim como as formas de suas mulheres, o Irã apresenta-se ao olhar ocidental de maneira enigmática, oculto sob o espesso chador do nosso preconceito e desinformação acerca do Oriente Médio em geral e de cada país da região, em específico.

Em viagens realizadas em momentos e circunstâncias diferentes, as jornalistas Adriana Carranca e Marcia Camargos tiveram a oportunidade de conhecer um país que não cabe na simplificação dos estereótipos. Muito longe de encontrar fanáticos religiosos hostis e minas terrestres a cada esquina, as autoras se depararam com cidades extremamente seguras para turistas, nas quais imperam a honestidade, a cordialidade e a gentileza nas relações. Em contrapartida, paira no ar a crescente insatisfação com o regime teocrático há três décadas no poder.

Concebido e escrito em parceria, “O Irã Sob o Chador” (Editora Globo) é o resultado da descoberta comum de uma realidade singular, num dos raros lugares do mundo ainda resistentes aos efeitos da globalização. Um cenário de conflitos permanentes entre arcaico e moderno, religioso e secular, opressivo e libertário – e que tem tais contradições capturadas no Caderno de Fotos, que ilustra o livro.

No mesmo país onde mulheres e homens têm de se sentar em partes diferentes do ônibus, por exemplo, circulam táxis nos quais ambos os sexos compartilham o aperto do banco. Alguns desses veículos são, inclusive, dirigidos por mulheres: há até uma cooperativa de taxistas femininas, que tem como clientela tanto as iranianas conservadoras (que não aceitam viajar com homens) como as liberais (que, em companhia feminina, se sentem à vontade para usar roupas um pouco mais ousadas).

Outro contraste verificado pelas autoras: o Twitter e o Facebook estão proibidos no país, o que não impede a existência de 1,4 milhão de usuários e 800 mil contas ativas dessas redes sociais, respectivamente – mesmo com a internet de banda larga restrita a hotéis e centros de convenção. Na China, onde há restrições semelhantes à comunicação virtual mas a população é vinte vezes maior do que a iraniana, o Twitter tem 409 mil perfis e o Facebook, ínfimas 14 mil contas ativas.

Desnudando as camadas do chador que envolve o Irã, Adriana e Marcia revelam uma sociedade pulsante que, à revelia do poder constituído, impulsiona o país. Um lugar que produz uma das mais instigantes cinematografias do mundo, mas que não hesita em usar a censura prévia (ou mesmo a prisão) para intimidar seus cineastas. Uma sociedade de machismo opressivo, no seio da qual emergiu a ativista Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz em 2003. Um caldeirão fervilhante, no qual nacionalismo, juventude e desejo de mudança se mesclam ao deslumbramento com o mundo que está do lado de fora do chador, e que ficou mais próximo com a internet.

Sobre as autoras
Jornalista e mestre em políticas sociais, Adriana Carranca mantém um blog na edição online de O Estado de S.Paulo, dedicado a questões de desenvolvimento global e direitos humanos.

Ganhadora dos prêmios Jabuti e da Academia Paulista de Letras, Marcia Camargos, jornalista com doutorado em história pela USP, é biógrafa de Monteiro Lobato e sócia da Usina de Conteúdo, produtora cultural.

Trechos do livro

O aspecto das ruas das cidades
A sensação de volta ao passado permanece. Os carros são velhos, o layout geral é antiquado e o gosto, duvidoso para nossos padrões ocidentais de consumo continuamente exacerbado pela criatividade dos publicitários. O Irã é mesmo outra civilização. Pelas paredes externas dos edifícios, outdoors que dariam arrepios a uma agência de fundo de quintal anunciam bancos, filmes e empreendimentos imobiliários. Efígies dos soldados que tombaram na guerra Irã-Iraque, que durou dez anos, a partir de 1982, homenageiam os mártires imolados no conflito. Grafites contra o imperialismo norte-americano e europeu, palavras de ordem conclamando os cidadãos a lutar contra a nefasta águia de garras afiadas, símbolo dos Estados Unidos e da suposta decadência “ocidental”, somam-se a outros clichês deliciosamente saudosos, que também remetem à Cuba de Fidel Castro.

As fotos dos aiatolás Khomeini e Khamenei marcam presença em toda loja, cinema, hotel, sala de museu ou teatro. Os suportes variam, mas suas figuras presidem sobre a população que escuta um trecho do hino nacional e algumas suras do Alcorão em forma de cânticos, obrigatoriamente, antes de qualquer cerimônia oficial. E os discursos começam sempre com os dizeres: “Be name Khoda”, em nome de Deus...

Comida
O pão é do tipo sírio, mais leve e maior, feito nas padarias espalhadas pelos bairros, e nas quais se pode ver o processo da feitura destes nune sangak. De avental branco e mãos ligeiramente trêmulas devido ao calor constante que enfrentam todos os dias, pressionam a massa antes colocá-la direto sobre pequenas pedras incandescentes no forno de tijolos. Com isso, provocam minúsculas bolhas, tornando ainda mais crocantes os pães, retirados após alguns minutos com uma pá de madeira.

Conformada com a abstinência compulsória, resta encarar com bom humor as alternativas disponíveis. Há refrigerantes e sucos de romã, além da principal bebida nativa, o dugh, refresco gasoso de leite fermentado por iogurte natural, servido com folhas secas de hortelã triturado, que não agrada ao paladar tupiniquim. É encontrado em qualquer esquina, junto com outros produtos de primeira necessidade. Mas quem pretende conhecer um hipermercado para ter noção do estilo de vida dos habitantes, vai descobrir que eles não existem no Irã. Ainda estamos nos tempos das vendinhas de esquina, simpáticas e acolhedoras no seu acanhado modo de ser, com prateleiras forradas de tecido, pequena oferta de produtos e apenas um ou dois atendentes para receber o dinheiro e empacotar as compras em sacolas de papel tipo craft. Em compensação, há os irresistíveis bazares, outra verdadeira instituição nacional.

Hejab
Lá fora me aguardava uma das monitoras do festival, com calça jeans apertada por debaixo da veste escura. Os olhos negros de sobrancelhas bem delineadas brilham por detrás do lenço que esconde parte dos cabelos, o pescoço e o colo. Logo eu descobriria que elas fazem de tudo para parecerem modernas e atualizadas dentro das rígidas normas islâmicas. Não é à toa que uma gritante porcentagem de plástica no nariz ocorra neste trecho do globo terrestre. Sem o recurso de ombros, barriga, pernas ou braços à mostra, precisam conquistar o sexo oposto pela expressão do rosto. Como são bonitas! E os homens não ficam para trás.
A casa é geminada de ambos os lados e logo à entrada tiramos os sapatos. Sua esposa, de tez clara e cabelos louros, me recebe com um sorriso. Domina o inglês com perfeição e manda que eu retire o hejab. Faço isso com gosto, livrando-me também da calça por debaixo do vestido. Quase esquecera como é agradável ficar com a roupa comum, sem os apetrechos que tolhem os movimentos e nos deixam o tempo todo, para o bem e para o mal, conscientes da nossa “condição” de mulheres.

Outro desafio para os ditos “ocidentais”, sobretudo as mulheres, é encarar o banheiro turco, com um simples buraco no chão. Tente usá-lo meio agachada, segurando a barra da calça, a veste que vai por cima, a câmera fotográfica e o véu que cisma em cair para frente, arrastando-se pelo chão respingado... E note que, em lugar de papel higiênico, há uma ducha para a higiene pessoal. Não me perguntem com o que elas se enxugam. De minha parte, aprendi a manter lenços de papel na bolsa. Ninguém terá problema em refazer o estoque, o produto é uma verdadeira mania nacional. No quarto de hotel, onde existe o vaso sanitário convencional, no console dos carros e na mesa dos restaurantes, eles são onipresentes e fazem as vezes do guardanapo, mercadoria inexistente no país.

A simpatia acompanha a beleza física. No meu contato inicial com aquela terra longínqua, eu aprenderia as regras básicas da hospitalidade iraniana. Todos se desdobram para atendê-lo, fazendo com que você se sinta especial o tempo todo sem precisar ser amigo do rei.


Serviços

O Irã sob o chador
Autor: Adriana Carranca e Marcia Camargos
Gênero: reportagem
Editora: Globo
Formato: 13,7 x 20,8 cm
Número de páginas: 240
Preço: a definir
Site: www.globolivros.com.br

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Mundo repudia ataque de Israel a frota humanitária


O Instituto da Cultura Árabe rejeita, lamenta e indigna-se frente o ataque das Forças Armadas israelenses a um comboio humanitário organizado pela ONG Free Gaza, nesta segunda-feira, 30 de maio. O grupo era formado por seis navios liderados por uma embarcação turca que transportava mais de 750 pessoas e 10 mil toneladas de ajuda humanitária para a faixa de Gaza. Ao menos dez pessoas morreram e cerca de 30 ficaram feridas.

A ação foi realizada em águas internacionais e sem qualquer motivo que a justificasse. A cineasta brasileira Iara Lee estaria entre os tripulantes do comboio, e ainda não se tem notícias de seu estado após o ataque. O governo brasileiro divulgou uma nota convocando o embaixador de Israel ao Itamaraty para que seja manifestada a indignação em relação ao ataque e a preocupação com a situação da cidadã brasileira. Na nota, o Brasil defende ainda que o bloqueio imposto à faixa de Gaza seja levantado "imediatamente", com o objetivo de garantir a liberdade de locomoção de seus habitantes e o livre acesso de alimentos, remédios e bens de consumo aos territórios da região.

Países de todo o mundo também manifestaram sua revolta para com fato. O governo do Paquistão condenou o uso de "força descarada" por parte de Israel contra uma "missão humanitária" que se dispunha a fornecer ajuda humanitária aos palestinos de Gaza.

O Ministério de Assuntos Exteriores da Turquia reagiu duramente ao ataque e, em comunicado, afirma que o governo israelense terá que enfrentar as consequências por seu comportamento.

O governo turco diz que o Exército israelense usou a força contra um grupo de ajuda humanitária, que inclui "idosos, mulheres e crianças" que viajam nos navios, o que considerou "inaceitável".

O Ministério de Assuntos Exteriores da Grécia iniciou um mecanismo de gestão de emergência com um telefone à disposição dos familiares dos gregos que estão na "Frota da Liberdade", pois três dos navios que a compõem procedem deste país.

Yanis Maistros, porta-voz em Atenas da seção grega da iniciativa, declarou que "os navios foram sequestrados"; e que "receberam disparos a partir de lanchas e helicópteros israelenses quando estavam navegando em águas internacionais, próximas ao litoral israelense".

Assim como os gregos, a comunidade europeia também reagiu ao incidente. A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, pediu hoje às autoridades israelenses uma "investigação completa" sobre o ataque à "Frota da Liberdade".

O Líbano pediu a convocação do Conselho de Segurança da ONU. O Irã qualificou o ataque como desumano. O Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha classificou o ataque como um fato inaceitável. O ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner disse que nada justifica o uso de tal violência.

O ataque também mereceu enérgica condenação da Organização da Conferência Islâmica.
A “Frota da Liberdade” foi a segunda tentativa de romper o bloqueio à Faixa de Gaza, imposto por Israelo desde 2007. Entre o final de 2008 e o início de 2009, Israel realizou um massacre àquele território palestino, que deixou cerca de 1500 mortos.

O ataque revela o terrorismo de Estado de Israel e demonstra que o país não pretende permitir a libertação do povo nem a criação do Estado palestino.

ANP

O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, decretou três dias de luto nos territórios palestinos devido ao ataque. Em comunicado emitido na Cisjordânia, por meio da agência oficial palestina "Wafa", Abbas não anunciou, no entanto, uma interrupção do diálogo indireto de paz que mantém com Israel.

"O que Israel cometeu contra os ativistas da 'Frota da Liberdade' é um massacre", disse Abbas. Seu porta-voz, Nabil Abu Rudeina, qualificou a ação de "crime contra a humanidade, já que foram atacados ativistas que não estavam armados e tentando romper o bloqueio sobre Gaza fornecendo ajuda".

O primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, leu diante das câmaras um comunicado no qual assegura que "nada pode justificar" o "crime" cometido hoje por Israel. "Esse crime reflete mais uma vez a falta de respeito de Israel pelas vidas de civis inocentes e pelo direito internacional", acrescentou.

Um dos principais assessores de Abbas, o chefe negociador palestino Saeb Erekat, qualificou o ocorrido de "crime de guerra" que "confirma que Israel age como um Estado acima da lei". Ele pediu uma resposta "rápida e apropriada" da comunidade internacional.

"Eram embarcações civis, que levavam civis e bens civis - remédios, cadeiras de rodas, comida, materiais de construção - para os 1,5 milhão de palestinos fechados por Israel. Muitos pagaram com suas vidas. O que Israel faz em Gaza é horrível, nenhum ser humano esclarecido e decente pode dizer algo diferente", apontou Erekat.

O chefe do governo em Gaza do movimento islâmico Hamas, Ismail Haniyeh, qualificou o ataque como "brutal" e convocou um Dia da Ira, ou seja, que os palestinos tomem as ruas em protesto pelas mortes.

Ele pediu à "comunidade internacional, principalmente as Nações Unidas, que ajam o mais rápido possível para proteger os navios e os ativistas e pôr fim ao bloqueio" que Israel mantém sobre Gaza há anos com a cooperação do Egito.

Além disso, pediu a Abbas que suspenda "imediatamente" o diálogo entre israelenses e palestinos com mediação dos Estados Unidos. Representantes da comunidade palestina com cidadania israelense convocaram para amanhã uma manifestação geral.

Fonte: Icarabe

terça-feira, 1 de junho de 2010

Porque vou a Gaza


Carta da Flotilha da Liberdade

A brasileira Iara Lee, cineasta e ativista social, era uma das integrantes da "Flotilha da Liberdade", um grupo de seis navios que transportava mais de 750 pessoas com ajuda humanitária para a Faixa de Gaza e que foi atacado por Israel na madrugada de segunda-feira (31/5).

Abaixo, um texto escrito por Iara pouco antes da viagem.

Porquê vou a Gaza
Em alguns dias eu serei a única brasileira a embarcar num navio que integra a GAZA FREEDOM FLOTILLA. A recente decisão do governo israelense de impedir a entrada do acadêmico internacionalmente reconhecido Noam Chomsky nos Territórios Ocupados da Palestina sugere que também seremos barrados. Não obstante, partiremos com a intenção de entregar comida, água, suprimentos médicos e materiais de construção às comunidades de Gaza.

Normalmente eu consideraria uma missão de boa vontade como esta completamente inócua. Mas agora estamos diante de uma crise que afeta os cidadãos palestinos criada pela política internacional. É resultado da atitude de Israel de cercar Gaza em pleno desafio à lei internacional. Embora o presidente Lula tenha tomado algumas medidas para promover a paz no Oriente Médio, mais ação civil é necessária para sensibilizar as pessoas sobre o grave abuso de direitos humanos em Gaza.
O cerco à Faixa de Gaza pelo governo israelense tem origem em 2005, e vem sendo rigorosamente mantido desde a ofensiva militar israelense de 2008-09, que deixou mais de 1.400 mortos e 14.000 lares destruídos. Israel argumenta que suas ações militares intensificadas ocorreram em resposta ao disparo de foguetes ordenado pelo governo Hamas, cuja legitimidade não reconhece. Porém, segundo organizações internacionais de direitos humanos como Human Rights Watch, a reação militar israelense tem sido extremamente desproporcional.

O cerco não visa militantes palestinos, mas infringe as normas internacionais ao condenar todos pelas ações de alguns. Uma reportagem publicada por Amnesty International, Oxfam, Save the Children, e CARE relatou, “A crise humanitária [em Gaza] é resultado direto da contínua punição de homens, mulheres e crianças inocentes e é ilegal sob a lei internacional.”

Como resultado do cerco, civis em Gaza, inclusive crianças e outros inocentes que se encontram no meio do conflito, não têm água limpa para beber, já que as autoridades não podem consertar usinas de tratamento destruídas pelos israelenses. Ataques aéreos que danaram infraestruturas civis básicas, junto com a redução da importação, deixaram a população em Gaza sem comida e remédio que precisam para uma sobrevivência saudável.

Nós que enfrentamos esta viagem estamos, é claro, preocupados com nossa segurança também. Anteriormente, alguns barcos que tentaram levar abastecimentos a Gaza foram violentamente assediados pelas forças israelenses. Dia 30 de dezembro de 2008 o navio ‘Dignity’ carregava cirurgiões voluntários e três toneladas de suprimentos médicos quando foi atacado sem aviso prévio por um navio israelense que o atacou três vezes a aproximadamente 90 milhas da costa de Gaza. Passageiros e tripulantes ficaram aterrorizados, enquanto seu navio enchia fazia água e tropas israelenses ameaçavam com novos disparos.

Todavia eu me envolvo porque creio que ações resolutamente não violentas, que chamam atenção ao bloqueio, são indispensáveis esclarecer o público sobre o que está de fato ocorrendo. Simplesmente não há justificativa para impedir que cargas de ajuda humanitária alcancem um povo em crise.

Com a partida dos nossos navios, o senador Eduardo Matarazzo Suplicy mandou uma carta de apoio aos palestinos para o governo de Israel. “Eu me considero um amigo de Israel e simpatizante do povo judeu” escreveu, acrescentando: “mas por este meio, e também no Senado, expresso minha simpatia a este movimento completamente pacífico…Os oito navios do Free Gaza Movement (Movimento Gaza Livre) levarão comida, roupas, materiais de construção e a solidariedade de povos de várias nações, para que os palestinos possam reconstruir suas casas e criar um futuro novo, justo e unido.”

Seguindo este exemplo, funcionários públicos e outros civis devem exigir que sejam abertos canais humanitários a Gaza, que as pessoas recebam comida e suprimentos médicos, e que Israel faça um maior esforço para proteger inocentes. Enquanto eu esteja motivada a ponto de me integrar à viagem humanitária, reconheço que muitos não têm condições de fazer o mesmo. Felizmente, é possível colaborar sem ter que embarcar em um navio. Nós todos simplesmente temos que aumentar nossas vozes em protesto contra esta vergonhosa violação dos direitos humanos.

Fonte: Icarabe

domingo, 23 de maio de 2010

Israel nega entrada de Noam Chomsky na Cisjordânia


No dia 15 de maio, o conhecido linguista, filósofo e ativista político estadunidense Noam Chomsky não pode entrar em Israel para dar uma conferência na universidade palestina de Birzeit , junto a Ramala. Depois de ter sido interrogado por mais de três horas, o acadêmico, que é judeu, teve o seu passaporte carimbado com a frase "entrada recusada". A porta-voz do Ministério do Interior israelense, Sabine Haddad, confirmou que a entrada de Chomsky foi recusada "por várias razões", mas não deu detalhes.

Chomsky é um dos maiores críticos de Israel no mundo acadêmico. Assume-se como socialista libertário e simpatizante do anarquismo, tendo publicado várias análises sobre as relações de conivência entre o poder e os meios de comunicação. Para ele, Israel e os EUA impedem a paz no Oriente Médio por não aceitarem a proposta de acordo da Liga Árabe.

Em março, ele recebeu, na Alemanha, o Prémio Eric Fromm 2010 pelo seu trabalho, convicções políticas e sua posição em defesa dos direitos dos pobres e oprimidos.

França vence a Copa do Mundo de Gaza


Impossibilitados de sair do território devido ao cerco israelense, os amantes da bola na Faixa de Gaza decidiram criar um mundial próprio, a um mês do oficial. Até as seleções são as mesmas

Enquanto os amantes de futebol no mundo inteiro aguardam com ansiedade a próxima Copa, que será realizada a partir de 11 de junho, na África do Sul, os palestinos da Faixa de Gaza decidiram organizar seu próprio “mundial”.

Impossibilitados de deixar o território devido ao cerco israelense, os entusiastas da bola locais formaram – como maneira de protesto e demonstração de amor pelo futebol – um evento similar ao Mundial da FIFA, inclusive com seleções internacionais. Estados Unidos, Itália, França, dentre outras equipes, integradas por palestinos e funcionários de organizações humanitárias, disputaram a sonhada taça entre 3 e 15 de maio. A final a ocorreu no último sábado, com a vitória da França sobre a Jordânia.

Ideia

A Copa do Mundo de Gaza foi uma invenção do norte-americano Patrick McGann e do palestino Ashraf Mohammed Hamad. McGann viajou a Gaza pela primeira vez há um ano, liderando a Jumpstart International, organização não-governamental que constrói escolas e ensina cartografia a estudantes locais. A Jumpstart não atua mais no território, mas o voluntário decidiu permanecer. "O cerco israelense me fez querer ficar," contou ao IPS (Inter Press Service News Agency).

A ideia de realizar o torneio surgiu quando McGann e Hamad, que trabalha na Universidade de Ciências Aplicadas em Gaza, começaram a jogar futebol juntos no campus da escola, atraindo outras pessoas e formando pequenos campeonatos.

"O futebol é muito importante em Gaza e Ashraf me perguntou o que poderíamos fazer para promover algo maior... Nos ocorreu que o futebol poderia se tornar um veículo para a conquista de diversos objetivos, como ajudar os jovens a desenvolverem habilidades para a busca pela paz e a construírem orgulho próprio por meio de suas conquistas, além de reunir as pessoas – estrangeiros e palestinos, palestinos de diferentes opiniões políticas etc."

Mantendo o espírito de diversidade, como também a celebração dos talentos locais, McGann conseguiu apoio tanto de fora – uma judia portorriquenha que trabalha em uma organização criada por McGrann criou o logo usado no Mundial – quanto local, com fundos doados pelo Banco da Palestina, PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e Pepsi Co.

O troféu, criado por Hamad, foi feito a partir dos destroços deixados pela invasão israelense à Faixa de Gaza entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009.

Com informações dos portais Opera Mundi, UOL e CNN

terça-feira, 20 de abril de 2010

Orquestra Folclórica de Abu Ghid (Egito) se apresenta amanhã em SP


Pela primeira vez no Brasil apresenta-se a ORQUESTRA FOLCLÓRICA DE ABU GHID (Egito). Composta por Hossam Shaker (Qanun), Atef Metkal Kenawy (Percussão), Mohamed El Sayed (Giro Sufi), Douglas Felis (Percussão) e Refat Farhat (Flauta). Será uma festa de músicas populares do Nilo, ritmos dos ciganos de Luxor, flautas tradicionais místicas e cantigas do Egito antigo. Também poderão ser apreciadas as mágicas danças Sufi de giro e as danças de transe, praticadas no Egito desde antes da idade média, com os trajes tradicionais.

Esta orquestra foi avaliada pela UNESCO como um importante resgate das artes egípcias (Hossam Shaker foi nomeado secretário regional no Egito por ser um dos maiores representantes da música oriental, no Cairo). A ORQUESTRA FOLCLÓRICA DE ABU GHID é, também, um braço do famoso grupo OS MÚSICOS DO NILO, pois conta com o grande mestre da percussão, Atef Metkal Kenawy, filho do fundador do mesmo.

As percussões sufi e os ritmos fatímidas, a cargo de Douglas Felis, poderão ser apreciados pelos amantes do ritmo, executadas com pandeiros coloridos típicos das festividades do Cairo islâmico, contará com Refat Farhat no Brasil apresentando para o público a Kawala (flauta egípcia). Sem dúvida, o mais importante instrumento da música folclórica mística.

Além do Show, Mohamed El Sayed fará um Workshop no sábado, 24 de Abril, a partir das 10h da manhã na Universidade Anhembi Morumbi Campus Centro. Todas as atividades e práticas serão acompanhadas pela ORQUESTRA DE ABU GHID, ao vivo.

Serviço:
Teatro Anhembi Morumbi
Rua Doutor Almeida Lima 1134, Brás, São Paulo /SP
site: http://www.teatroanhembimorumbi.com.br/

domingo, 18 de abril de 2010

Líbano – 25 de março, feriado islamo-cristão à Virgem Maria


Por Roberto Khatlab*

O Líbano, em uma ocasião única, decretou 25 de março como um dia de feriado nacional, dia consagrado à Anunciação da Virgem Maria. Lembrando que a Virgem Maria, venerada pelos cristãos, é também admirada pelos muçulmanos.

O Alcorão, livro sagrado do Islã, recita: “Ó Maria, é certo que Deus te elegeu e te purificou, e te preferiu a todas as mulheres da humanidade” (Surata Aal `Imran 3, 42). No Islã, Maria é considerada a “Mãe” dos fiéis muçulmanos. Nesta perspectiva podemos ver um ponto de diálogo entre o cristianismo e o islamismo, abertura de espírito, fora de qualquer polêmica. Notamos também que o Alcorão não cita nenhum nome de mulher, salvo o de Maria, mãe de Jesus (30 vezes). O Alcorão tem até mesmo uma surata (capítulo) intitulado “Surata Maryam” (19), que contém o relato da anunciação, gravidez e nascimento de seu filho Jesus.

Diante deste ponto em comum, foi criada, na data 25 de março, que é o Dia da Anunciação para os cristãos, uma festa nacional islamo-cristã, abrindo uma grande porta para o diálogo inter-religioso. No Líbano este episódio tem um significado especial, visto ser um país onde vivem diversas comunidades religiosas.

Para que a data fosse criada, foram necessários muitos anos de conversações, sendo que os principais representantes desse diálogo são o Cheikh Mohammad Nokkari, o juiz “Charia” (lei islâmica) de Beirute, o antigo secretário geral da Dar al-Fatwa (Tribunal Muçulmano Sunita) e Nagy el-Khoury, secretário geral da Associação dos Antigos Amigos de Jamhour (Colégio Nossa Senhora de Jamhour, padres Jesuítas no Líbano), co-secretário geral do encontro islamo-cristão no circulo da Virgem Maria.

A primeira cerimônia islamo-cristão de 25 de março foi realizada neste ano, na igreja do Colégio Nossa Senhora de Jamhour. O evento reuniu cantos, salmos e várias autoridades religiosas e civis, muçulmanas e cristãs, tendo como convidado estrangeiro Lech Walesa, ex-presidente da Polônia e Nobel da Paz.

De acordo com palavras do Cheikh Nokkari, proferidas na ocasião, “este encontro não tem como objetivo criar uma nova festa religiosa aos muçulmanos. Não se trata, também, de acrescentar uma nova festa ao calendário litúrgico cristão. Não existe em nosso encontro nenhuma prática religiosa comum. Por esta razão que nós desejamos, desde o início, que ele se tornasse uma festa nacional e não religiosa. Este encontro criou um novo fenômeno mundial cultural, de interesse tanto do Islã quanto do cristianismo”.

Após a cerimônia, todas as pessoas foram até a praça do Museu Nacional de Beirute, local que durante a guerra civil (1975-1989) era campo de batalha entre Beirute Leste (dito cristão) e Oeste (dito muçulmano). Ali foi inaugurada uma placa comemorativa do evento e uma menina muçulmana da família Adra de Tripoli, chamada Maryam (Maria), foi quem descobriu a placa para ficar como marco da comemoração.

O Líbano é um país de coexistência há séculos e permanece com esta vocação. Uma terra de hospitalidade, um país que faz parte da “Terra Santa” para as três religiões monoteístas que nasceram naquela mesma região. O 25 de março passou também a ser, a partir de 2008, uma data significativa no Brasil, quando se comemora o Dia Nacional da Comunidade Árabe no Brasil, em função da grande colônia de imigrantes árabes e filhos de imigrantes, muçulmanos e cristãos, que vivem lado a lado neste território, terra de coexistência e hospitalidade.

Roberto Khatlab*
é pesquisador no Centro de Estudos da Emigração Libanesa da Universidade Notre Dame, no Líbano.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Grupo pelos direitos humanos condena ameaça de Israel


Um grupo israelense pelos direitos humanos pediu hoje à comunidade internacional que pressione o governo de Israel. O motivo é uma ordem da administração israelense pela qual milhares de palestinos podem ser despejados da Cisjordânia.

"A Quarta Convenção de Genebra impõe uma proibição completa à remoção forçada de civis de suas casas, uma proibição cujo descumprimento é considerado uma grave violação da convenção", afirmou o Centro Hamoked para a Defesa do Indivíduo. "Nós pedimos a todos os Estados signatários da convenção para tomar ação imediata a fim de que ela (ordem militar israelense) seja revogada", diz o grupo em comunicado.

A emenda a uma ordem anterior de Israel amplia a definição de "infiltrados" que poderiam ser expulsos da Cisjordânia. Segundo a alteração, qualquer pessoa "que não tenha uma permissão" pode ser expulsa. O texto não especifica que tipo de documento seria necessário para evitar o despejo.

Sete grupos israelenses pelos direitos humanos já afirmaram anteriormente que o texto era tão vago que "teoricamente, permitia aos militares esvaziar a Cisjordânia de quase todos seus moradores palestinos".

Os palestinos querem a Cisjordânia e a Faixa de Gaza como partes de seu futuro Estado independente. Além disso, exigem Jerusalém Oriental como a capital desse futuro Estado. No entanto, as negociações com os israelenses estão em um impasse. As informações são da Dow Jones.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Documentário "Budrus" está no 15° Festival É tudo verdade


O Festival É tudo Verdade, que ocorre nesta semana, em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ) exibirá o longa-metragem "Budrus", vencedor do Prêmio do Público, Segundo Lugar, no Festival Internacional de Berlim.

Dirigido por Julia Bacha, trata de um vilarejo na fronteira entre a Cisjordânia e Israel, que ocupou as manchetes em 2003, quando foi palco de um inusitado protesto não-violento. O motivo foi o anúncio da construção de um muro pelos israelenses que destruiria oliveiras histórica e economicamente importantes. À frente do movimento estava Ayed Morrar, cuja liderança comunitária e pacifista uniu em torno da causa facções palestinas rivais, como a Fatah e o Hamas, e judeus progressistas. Também importante para a mobilização foi Iltezam, a filha de Morrar, que conseguiu uma adesão maciça de mulheres. Ouvindo todos os lados envolvidos, a diretora brasileira de origem libanesa, Julia Bacha, monta um amplo painel de uma situação explosiva no Oriente Médio que encontrou solução por via pacífica.

Datas e horários:
15/04 - 19H00M: CCBB SP (São Paulo - SP)

17/04 - 13H00M: CCBB SP (São Paulo - SP)

A entrada é franca para todas as sessões.

Para assistir ao trailer e ler artigos sobre o filme, visite: http://www.justvision.org/en/budrus

Para mais informações, visite o site do festival:
http://www.itsalltrue.com.br/2010/busca/detalhes.asp?id=11040&lng

Exposição:"O deserto não é silente" está no Museu Afro Brasil até dia 18


Após ser exibida em 10 grandes cidades do mundo, a mostra "O Deserto Não é Silente”, com peças arqueológicas e telas contemporâneas da Líbia, chega a São Paulo. Trazida pela fundação Gaddafi International Foundation for Charitable Associations e coordenada pelo arquiteto e artista plástico Saif El Islam El Gaddafi, filho do líder do país árabe Muammar El Gaddafi, a exposição será aberta no dia 9 de março no Museu Afro Brasil, em São Paulo.

A mostra vai reunir 28 peças arqueológicas greco-romanas e 51 telas de pintores contemporâneos, que estão sob a curadoria do diretor do museu brasileiro, Emanoel Araújo. Todas as peças fazem parte do patrimônio arqueológico do país árabe, que inclui esculturas, mosaicos e objetos da vida cotidiana da Líbia. As telas, que são na maioria pintada a óleo, trazem temas figurativos e abstratos que relatam o deserto, um lugar de passagem, uma memória, uma fonte de vida.
Um dos três pintores, autor da maioria das telas, com 39 no total, é o próprio Saif El Islam El Gaddafi, os outros dois são Fawzi Swei e Salaheddine Shagroun. A exposição itinerante, que ficará em São Paulo até dia 18 de abril, já foi exibida em Paris, Berlim, Londres, Roma, Milão, Genebra, Viena, Madri, Tóquio e Montreal.

Segundo a organização da mostra, o público terá a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a riqueza e o passado histórico da Líbia e da sua arte contemporânea. Localizado no Norte da África, o país árabe está entre os maiores em extensão territorial do continente africano. Com uma população de 6,4 milhões de habitantes, a Líbia possui a oitava maior reserva de petróleo do mundo.

Entre as peças que o público vai poder conferir estão pontas de flechas de povos primitivos, datadas entre 6000 e 2000 a.C, estatueta de mármore da figura nua de Dionósio, lâmpada islâmica de Trípoli, relógio de sol de Leptis Magma, do século 1 d.C

Para a abertura da exposição, um grupo de artistas líbios vem ao Brasil para apresentar a música popular do país. A fundação Gaddafi International Foundation for Charitable Associations, organizadora do evento, tem sede em Trípoli, capital, e tem como objetivo lutar pelos direitos humanos, pobreza e pelos prisioneiros de guerra.

No Brasil, a mostra tem conta com patrocínio da empresa Odebrecht e co-patrocínio da Petrobras.

Serviço:
"O Deserto Não é Silente"
Data: 09 de março a 18 de abril
Horário: terça-feira a domingo, das 10h às 17h
Local: Museu Afro Brasil
Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral, s/n – Parque Ibirapuera

domingo, 11 de abril de 2010

Refutando a ideia de opressão e desrespeito às mulheres muçulmanas


Por Hesdras Sérvulo Souto de Siqueira Campos Farias*

A condição da mulher é hoje muito discutida em congressos e fóruns mundiais que têm a mulher como eixo central dos debates. O ocidente costuma dirigir muitas críticas ao Islã por tratar, na sua visão, a mulher com desrespeito e humilhação. Quem faz tais afirmativas desconhece por completo o islamismo. Poucas pessoas sabem, por exemplo, que o primeiro muçulmano, foi uma mulher, Khadija, esposa do Profeta Muhammad (chamado de Maomé nas línguas latinas). Ela foi a primeira pessoa a quem o Profeta falou da Revelação e foi quem o apoiou nos momentos mais difíceis, incentivando-o nas pregações ao povo. Portanto, Khadija foi a primeira pessoa a aceitar o Islã. (ABD’ALLAH. 1989).

O Alcorão, livro Sagrado do Islã, assegura uma série de direitos às mulheres, direitos que outrora inexistiam, em qualquer que fosse a sociedade ou religião. Inclusive, alguns direitos, apenas ela possui, refutando a ideia de que a mulher é desprovida de direitos que assegurem sua dignidade no islamismo. O livro ainda reserva uma Surata, mais precisamente a quarta, inteira só para a mulher, a chamada Suratu An-Nissá (A sura das mulheres). Para facilitar uma melhor compreensão, o texto será separado em três âmbitos: social, econômico e espiritual.

A mulher no contexto social:

A vida
O primeiro e fundamental direito de qualquer ser humano é o direito à vida, e o Alcorão assegura esse direito:

“...Quem mata uma pessoa, sem que esta haja matado outra ou semeado corrupção na terra, será como se matasse todos os homens. E quem lhe dá a vida será como se desse a vida a todos os homens...” (Surata 5:32)

A proteção e a reputação
Era costume de alguns homens, quando não queriam mais suas mulheres, caluniarem e difamarem sua honra, causando severas punições a elas. O Alcorão tem uma lei que proteje a mulher desses incidentes:

“E aos que acusam de adultério as castas mulheres, em seguida, não fazem vir quatro testemunhas, acoitai-os com oitenta açoites, e, jamais, lhes aceiteis testemunho algum; e esses são os perversos.” Surata (24:4)

O trabalho
Dentre os vários argumentos que os detratores do Islã usam está o de dizer que a mulher muçulmana não pode trabalhar. O Islã diz que o homem é quem tem obrigação de cuidar e prover uma família, mas isso não impede que a mulher trabalhe, desde que seu trabalho não a impeça de cuidar da família e da educação dos filhos. Isso porque ela é a fonte de alegria, de carinho e dos bons valores. O trabalho dignifica o ser humano, independendo do sexo, e o Islã é uma religião que incentiva o trabalho e a instrução. Na história do Islã houve grandes mulheres que trabalharam, como Khadija, primeira esposa do Profeta, era uma grande comerciante na Arábia. Zaynad, outra esposa do Profeta, era uma grande artesã, além da senhora Rafida al Asslamia, que dedicou a vida a cuidar dos doentes e feridos na Mesquita do Profeta. Contam que na época do califa Omar Ibn al Khattab, a fiscalizadora geral do mercado era Axiffá, uma sábia mulher. Portanto, dizer que a mulher no Islã é proibida de trabalhar é um embuste. (WAHDANI, s/d).

A educação
No mundo islâmico, a educação também é assegurada a todos, homens e mulheres, além de ser gratuita, como a saúde. Ambas são de boa qualidade. Esse hadice (2) deixa isso claro: “Buscar o conhecimento é um dever de todo muçulmano e muçulmana (3)”. Contam queAisha era especialista em leis que tratavam de herança e sobre o que era lícito e Ilícito. Ela foi muito mencionada por diversos juristas por ter convivido bastante com o Profeta Muhammad. Chegaram até a dizer que ela era a mais eloquente dos árabes. (WAHDANI, s/d). A educação sempre foi prioridade no mundo islâmico. O Profeta costumava dizer: “Buscai o conhecimento até na china” e ainda “Procurem a sabedoria do berço até túmulo.”

O direito de falar e ser ouvida:

Durante séculos a mulher foi proibida de opinar sobre qualquer assunto, sua opinião era jamais consultada e sua voz jamais ouvida. E isso aconteceu até alguns poucos anos atrás. O Islã deu liberdade de expressão às mulheres, sobre qualquer assunto que desejassem opinar. O próprio Profeta consultava sua esposa Khadija sobre tudo e sempre seguia seus conselhos e ficava alegre ao ouvi-los.

O direito de escolher seu marido:
Apesar disto ter sido incomum em muitas culturas, inclusive na Arábia pré-islâmica, o Islã proibiu categoricamente que a mulher fosse forçada a casar-se sem o seu consentimento. Ninguém poderia forçá-la, fosse o pai, o irmão ou o tutor. Percebemos o zelo que o Profeta Muhammad tinha com as mulheres quando disse (4):

"Quanto mais cívico e amistoso for um Muçulmano para com a sua esposa mais perfeita é a sua fé."(Hadice compilado por Tirmidhi).

"Os crentes mais perfeitos são os melhores em conduta, e os melhores de entre vós são aqueles que são melhores para as suas esposas."(Ibn Hanbal).

"É o generoso (em caráter) aquele que é bom para as mulheres, e é fraco aquele que as insulta".

Para o Profeta, a mulher não é "um instrumento do demônio",mas, sim, uma "Muhsanah",ou seja, uma fortaleza contra satanás.

*Hesdras Sérvulo Souto de Siqueira Campos Farias é graduando em ciências sociais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco / Departamento de Letras e Ciências Humanas / Cátedra Ibn Arabi.

**Esta é uma síntese do artigo para lê-lo na integra acesse o site do Icarabe

sábado, 3 de abril de 2010

Quando os árabes chegaram ao Brasil?


Por Roberto Khatlab*

Ninguém sabe exatamente. O que se sabe com certeza, é que existem sim, registros de árabes na tripulação de Cabral, em 1500, além da presença árabe durante o período colonial no Brasil. Muitos ficaram quase no anonimato, enquanto outrosmarcariam sua história no decorrer do tempo, tal como o gramático Manuel Said Ali, nascido em Petrópolis, no Rio de janeiro em 1861, que era filho de Said Ali, árabe que faleceu dois anos depois do nascimento desse filho. Uma prova contundente de que já habitava o Brasil antes de 1861. Recentemente foi publicada a tradução do livro 'Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali', escrito pelo imã Abdurrahmán Al-Baghdádi, árabe nascido em Bagdá, que viveu no Brasil de 1865 a 1868, assim como tantos outros, particularmente, a partir de 1880, nove anos depois da viagem de Dom Pedro II ao Oriente, em 1871 ao Egito e em 1876 à Siria, Líbano, Palestina e Egito, e que deu origem à grande imigração dos árabes para o Brasil. Provavelmente por causa da divulgação feita com a passagem do Imperador pelo Levante.

Desta forma, a imigração árabe – libanesa, síria, palestina... – ao Brasil, ultrapassa facilmente mais de quatro séculos. Como historiador e pesquisador na área da imigração libanesa para o Brasil, e com livros e pesquisas publicados sobre este assunto, acredito que comemorar apenas os 130 anos da chegada dos árabes no país significa diminuir a importância da contribuição desse povo no desenvolvimento da nação brasileira e resvalar para um erro histórico sem precedência, porque deixa de considerar os que chegaram antes de 1880, os pioneiros que formariam a base para a grande imigração.

A Associação Cultural Brasil-Líbano (ACBL) foi a primeira a comemorar os 125 anos da imigração libanesa no Brasil em 2005, evento que contou com presença do presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, que bem lembrou naquela ocasião que, provavelmente, os libaneses já estavam aqui muitos anos antes do início oficial da imigração, em 1880. "Não sei se é só isso, se não tinha libanês infiltrado no navio de Cabral quando ele chegou aqui", disse o presidente.

Ainda que tenham se mantido ligados ao comércio, nos setores tradicionais ou não, e mais tarde à indústria, é notória a presença árabe nas mais diferentes atividades e setores profissionais, preferencialmente na medicina, no direito e nas atividades políticas, ao longo das gerações, e como decorrente do processo de consolidação de um projeto migratório concebido como provisório e que aos poucos se transformou em definitivo.

A ACBL neste ano, em abril, comemora o acontecimento, dando ênfase em seu logo para esta questão e colocando o sinal de “+130 anos da imigração libanesa no Brasil”, o que faz jus aos primeiros imigrantes árabes – libaneses, palestinos, sírios...- que ficaram no anonimato, mas cujo dinamismo resultou na grande coletividade árabe contemporânea, da qual os libaneses, segundo estimativas, formam o maior contingente. Esta coletividade faz parte, agora, da sociedade brasileira. Este fato pode ser facilmente comprovado quando seus descendentes dizem com orgulho e o coração aberto, “somos brasileiros de origem libanesa. Palestina, síria...” Portanto, não fixar datas precisas, é respeitar o pioneirismo de um povo forte e corajoso que aqui chegou como imigrante voluntário, sem ter um contrato de governo nas mãos que lhe assegurasse trabalho, alimentação e outros benefícios, como no caso dos italianos, alemães, japoneses..., estes sim, são conscientes de uma data de chegada precisa e sabem até mesmo o nome do navio que os transportaram.

Os árabes chegaram individualmente e apesar de não gostarem do passaporte turco, por se tratar de seus opressores na época, foi graças a ele que desembarcaram no Brasil e puderam livremente percorrer todo o território brasileiro, diferente de muitas colônias de imigrantes europeus que ficaram confinados às fazendas de café. Desse modo, o imigrante árabe foi uma ponte entre a cidade e o interior brasileiro, entre a casa grande e o casebre, foi o que fez intercâmbios de mercadorias e costumes em todo Brasil, de norte a sul, o gerador de um novo modelo de comércio para o Brasil. Onde, neste país, não se conhece o kibe, a esfiha, a prática do crediário ou docomércio feito “no corpo a corpo”? Esta foi e continua sendo – repito – do ponto de vista histórico, a grande contribuição dos árabes no Brasil: ser um novo elo entre as regiões brasileiras, gerando um novo estilo de vida e de comércio em todos os recantos deste imenso país. Por isso, compartilho e acho correto comemorar “+130 anos”. Ao contrário, restringir esta data há exatos 130 anos, é restringir também a grande história e a saga dos árabes no Brasil.

*Roberto Khatlab é pesquisador no Centro de Estudos da Emigração Libanesa da Universidade Notre Dame, no Líbano. Autor de vários livros sobre as relações Brasil-Líbano, entre eles Mahjar, Saga libanesa no Brasil (bilingue português-árabe), Editora Mukhtarat, Beirute, Líbano.

Fonte: Icarabe

domingo, 28 de março de 2010

Filme e debate agitam Dia da Terra em SP


O Cuca da UNE(União Nacional dos Estudantes) de São Paulo vai exibir nesta terça,30, o filme "Porta do Sol" seguido de um debate sobre o assunto. Dia 30 de março é comemorado o "Dia da Terra", representado pela árvore oliveira, foi neste dia em 1976 que palestinos protestaram contra a invasão do exército israelense a Galiléia. Esta manifestação foi reprimida violentamente sem distinção entre mulheres, homens e crianças, seis palestinos foram assassinados e centenas ficaram feridos e presos.

A iniciativa é uma parceria entre o Instituto de Cultura Árabe, Movimento Palestina para Todos, Sociedade Árabe-Palestina de São Paulo, Centro Cultural GianFrancesco Guarneri, Frente em Defesa do Povo Palestino e Cuca SP, com o intuito de não deixar cair no esquecimento a morte de cidadãos comuns e trazer informações sobre o tema complexo, as sociedades organizadoras e apoiadoras levantam a bandeira dos que lutam contra a criminilização dos movimentos sociais e pela democracia plena, com justiça social.

SERVIÇO
Centro Cultural GianFrancesco Guarneri
Rua Vergueiro, 2485- Vila Mariana (próx ao metro Ana Rosa)
30 de março,terça-feira, às 19h30

sexta-feira, 26 de março de 2010

A 25 de março e a imigração árabe: histórias que se cruzam


Por Samira Adel Osman

Neste mês, duas histórias entrecruzadas comemoram mais um aniversário: a da rua 25 de Março, com 145 anos, e da imigração árabe, com o marco simbólico de 130 anos. Mas não se trata apenas de uma coincidência de datas; na verdade a história da 25 de Março está intrinsecamente ligada à imigração árabe para São Paulo e vice-versa.

A remota concentração árabe na região central de São Paulo, mais especificamente na 25 de Março e em suas adjacências como Ladeira Porto Geral, e as ruas Cav. Basílio Jafet, Comendador Abdo Schahin, Barão de Duprat, Afonso Kherlakhian, Senador Queiróz, Carlos de Souza Nazaré, fez com que fosse identificada na cidade como a “rua dos árabes” a despeito das transformações ocorridas, revelando uma forte vinculação identitária. Tal identificação levou à criação em 2008 do Dia Nacional da Comunidade Árabe no Brasil a ser comemorado no dia 25 de Março.

A fixação dos árabes na região central de São Paulo foi marcada pela ocupação da tradicional 25 de Março, da região do Ipiranga, da Vila Mariana, da região da Av. Paulista, a expressão máxima dos condicionantes sociais, com o anseio de prestígio social na comunidade e na sociedade. A partir de 1950, os imigrantes que foram chegando se dispersaram pelas zonas periféricas da cidade; alguns ainda permaneceram mais próximos ao centro como extensão da zona do mercado, ocupando o Brás e o Pari, enquanto outros se dispersavam em bairros como São Miguel, Penha, Santo Amaro, além de municípios vizinhos como Santo André e São Bernardo.

A concentração urbana remota marcou a inserção econômica vinculada à atividade de mascateação. O imigrante árabe é identificado, ainda hoje, por sua vinculação à atividade de mascateação e ao comércio popular e varejista, ligado ao setor de armarinhos, tecidos e confecções, e mais recentemente ao setor moveleiro. A ocupação dos bairros pelos membros da comunidade, em diferentes épocas, pode ser explicada a partir do sucesso econômico obtido por esse grupo ao longo do processo de consolidação na cidade.

Ainda que tenham se mantido ligados ao comércio, nos setores tradicionais ou não, e mais tarde à indústria, é notória a presença árabe nas mais diferentes atividades e setores profissionais, preferencialmente na medicina, no direito e nas atividades políticas, ao longo das gerações, e como decorrente do processo de consolidação de um projeto migratório concebido como provisório e que aos poucos se transformou em definitivo.

É ao longo das gerações de imigrantes que a presença árabe se mantém marcante na cidade de São Paulo e em outras cidades do país por onde se dispersaram, deixaram suas marcas e fincaram raízes. No reconhecimento de uma origem árabe, é que os membros dessa comunidade mantêm uma dupla vinculação identitária: ser árabe e ser brasileiro. É o que se celebra nesse 25 de Março.

Samira Adel Osman* é docente de História da Ásia do curso de história da UNIFESP Guarulhos e pesquisadora do Neho-USP (Núcleo de Estudos em História Oral) sobre a temática da imigração.
**Artigo publicado no site do Instituto de Cultura Árabe(ICARABE)

quarta-feira, 17 de março de 2010

O LAROUSSE DISSE


Por: Jade El Jabel*
O Larousse disse que são:

Humilde: Que está no chão, que não se levanta do chão, pouco elevado. 1 – Que tem ou aparenta humildade. 2 – Simples, modesto, pobre. 3 – Respeitoso, submisso. 4 – Medíocre, reles, obscuro.

Modesto: 1 – Que pensa a seu respeito ou fala de si mesmo sem orgulho, despretensioso, humilde. 2 – Moderado, desambicioso. 3 – Simples, pobre.

Orgulhoso: 1 – Que se orgulha, que apresenta um ar altivo, arrogante. 2 – Ufano, feliz, vaidoso.

Prepotente: 1 – Muito poderoso ou influente. 2 – Opressor, despótico. 3 – Que abusa do poder, tirânico.

Destas palavrinhas, as duas primeiras são comumente usadas para elogiar pessoas e as duas últimas, no sentido contrário. Contrário e oposto, como se estas palavras representassem antônimos umas das outras e não o são.

No sentido oposto do Humilde “que está no chão, pouco elevado”, não está o Prepotente “muito poderoso ou influente”, está o Altivo, que não se conforma ou se acomoda, o que tem força de vontade, iniciativa. Da mesma maneira que, na direção oposta do Prepotente “opressor, despótico” está o Justo, que tem bom senso e respeito pelas pessoas e não o Humilde “respeitoso e submisso”.

E, transitando por uma outra via que esbarra nestas características pessoais está o sucesso e a falta dele. Como já disseram, o dicionário é o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho. O sucesso vem do trabalho bem feito. E não é estar na moda, na mídia, não somente isso e a qualquer custo. É o reconhecimento da qualidade, por si próprio, pelo público e pelos colegas artistas, que traz trabalho e, consequentemente, dinheiro, talvez fama. O sucesso sem qualidade é uma coisa efêmera e escandalosa, é um balão de gás colorido, que murcha e despenca, silenciosamente.
Por outro lado, quando um artista se priva do reconhecimento e possível desfrute do seu sucesso está privando a todas as pessoas e não somente a si mesmo, do acesso e da celebração de sua conquista. Não desfrutando, não ensina nem divide.

Fama, dinheiro, qualidade, popularidade e aceitação, não andam juntas o caminho todo e, transpiração, tempo, paciência, força de vontade, estudo, amor e dedicação se abandonados, ainda que já se tenha conquistado o sucesso, este é mais um balão de gás.

Falando em Larousse:
Sucesso: 1 – Resultado feliz, êxito. 2 – Acontecimento, fato, caso, ocorrência.
Agora, volte para o espelho e Aconteça!!!
Com amor e com Deus!

Jade El Jabel*- Professora e dançarina de dança do ventre

sexta-feira, 12 de março de 2010

Refugiados X Cáritas e Acnur


A vida dos refugiados no Brasil não é só alegria por voltarem a ter um lar de verdade, longe dos bombardeios e perseguição política e racial.Alguns refugiados, mesmo chegando a quase dois anos de residência brasileira, não conseguiram se adaptar e inclusive alegam falta de assistência da Cáritas e do Alto Comissariado das Nações Unidas, responsável pelo Programa de Reassentamento.

O Acnur repassa uma verba para que a Cáritas possa administrar educação, moradia, alimentação e assistência médica para os refugiados.Muitos ainda não falam o idioma porque não puderam freqüentar as aulas, pois precisavam trabalhar para complementar a ajuda financeira cedida pelo Programa. Inclusive a falta de emprego é uma das reclamações. Segundo alguns refugiados, foram prometidos empregos assim que chegassem ao Brasil. O que não foi cumprido, pois muitos deles continuam desempregados.

Issam Ali é um exemplo disso. Ele é solteiro e está no momento sem trabalho. Prestes a se casar, teme o futuro após o fim do Programa. Para a cultura muçulmana, a futura esposa só precisa ir para o novo lar com a roupa do corpo e o marido é o principal responsável por trazer o dinheiro para dentro de casa. Sendo assim, para ele, além de ser uma necessidade, é uma condição cultural. “Eu também preciso de ajuda porque eu fiquei aqui sozinho, não tenho família”, diz Issam.

Hossam Khalil, de 37 anos, já vive um dilema diferente. Sofre com a incerteza de saber como está seu filho Aeihm, de 9 anos, que mora na Faixa de Gaza. Desde sua vinda para o Brasil, ele cobra uma resposta do Acnur para o pedido de transferência do menino para cá. Ele diz que o órgão está estudando a proposta, mas nunca dá uma resposta definitiva mesmo depois de quase dois anos. Acusa os responsáveis da Cáritas e Acnur de negligência e desrespeito aos refugiados.

“Quero que Javier [Javier Cifuentes, representante do Acnur no Brasil] veja que meu filho está morrendo em sua frente e ele está olhando, mas não faz nada por mim. Quero que ele sinta o que estou sentindo para ver o que passo”, relata Hossam com indignação.Ele não fala bem o português e diz não conseguir se adaptar completamente, porque não esquece a ausência do filho.

Em resposta, o ACNUR, por meio de seu oficial de informação Luiz Fernando Godinho diz que o caso em questão está sendo estudado desde a sua solicitação. Além do escritório no Brasil, estão envolvidos outras sedes do ACNUR em países árabes e também o Ministério das Relações Exteriores do Brasil para solução do caso.

Em uma situação mais tensa se encontram cerca de 20 refugiados que desde maio de 2008 estavam acampados em frente ao escritório do ACNUR, em Brasília. O grupo reivindicava respeito e atendimento médico adequado custeado pelo órgão para poder sair do Brasil.

Já o ACNUR nega que houve descaso e diz que o processo de adaptação é lento e difícil, mas que, até o final do programa, todos os refugiados estarão integrados e que os problemas de atendimento na rede pública de saúde ou educação são decorrentes da própria situação do País, e não do órgão da ONU ou de seus parceiros.

Segundo Ahmad Uzgani, representante da Frente Independente de Autonomia aos Refugiados, muita gente pensa sobre o acampamento em Brasília como algo que não deveria estar ocorrendo, é uma expressão de ingratidão com o povo que os acolheu, porém só eles mesmos entendem a reinvidicação por estarem sofrendo.Ele listou alguns problemas ocorridos: pessoas idosas e com doenças pré-existentes não foram levadas à um check-up, o auxílio subsistência era menor do que o valor do salário mínimo vigente, não houve encaminhamento para possíveis empregos daqueles que podiam trabalhar.

O gestor do programa de refugiados das Cáritas, Antenor Rovida, diz nunca ter faltado assistência médica aos refugiados e que as consultas eram marcadas, porém eles não apareciam. Diz ainda esta ser a primeira vez que eles estão tendo problema no programa e que a intenção não é fazer caridade e sim dar condições iniciais para eles poderem caminhar sozinhos.

Em maio, por uma determinação judicial, o grupo de acampados teve que ser retirado do local e hoje esta vivendo em casas de amigos ainda em Brasilia, esperando uma reunião com o Itamaraty, embaixada da Palestina e ACNUR.

Segundo a psicóloga Carmen Santana, especialista em migrações e refugio, os imigrantes encontram uma série de dificuldades após a chegada em uma nova sociedade como problemas com o idioma, diferenças culturais e econômicas.

Mogi das Cruzes recebe 57 refugiados palestinos


A cidade de Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo foi escolhida para receber 57 refugiados palestinos do grupo que chegou ao Brasil. O Acnur delegou à Cáritas Brasileira de São Paulo (ONG parceira), a responsabilidade de inserir o grupo na cidade, oferecendo moradia, assistência médica e educação básica.

Mogi das Cruzes foi escolhida por ser uma cidade com grande número de moradores de origem árabe e por ter uma mesquita. Aliás, é por intermédio do sheik Hosni que os refugiados “driblam” as dificuldades que encontram para se comunicar com os comerciantes locais.

“Um dia um senhor deles foi ao banco e ele não sabia como mexer no caixa eletrônico, então o funcionário que me conhece e sabe meu telefone me ligou e pediu ajuda. Por telefone resolvemos. Da minha parte eu estou ajudando mil por cento”, relata o sheik Hosni.

E a cidade parece ter aberto os braços para recebê-los de fato. No começo do ano houve um sarau especial em homenagem a eles, onde foi discutida a questão palestina, poesias e apresentações musicais com a participação dos novos moradores da cidade. E no dia 1º de Maio, outro sarau foi feito e desta vez pudemos ver esta inclusão cultural.

No evento, estavam presentes grupos de refugiados, degustação de comida árabe e novamente expressões artísticas, além da decoração nos tons vermelho, branco, verde e preto (cores da bandeira palestina).

Até mesmo a política pública da cidade precisou se adaptar. As guardas civis e militares receberam treinamento de como orientar e lidar com os novos moradores.
Tivemos o primeiro contato com uma das personagens desta reportagem em um típico dia chuvoso da terra da garoa. Hudá Al-Tamini vive com seu marido e dois filhos na cidade de Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo. Poderiam ser uma família árabe como qualquer outra, porém há um grande diferencial: eles trazem em seus passaportes, as conseqüências de uma guerra histórica e sem previsão para acabar, tampouco a certeza de um final feliz.

Ao nos atender, ela fez uma expressão como se fosse dizer: reportagem outra vez? Essa expressão tem motivo: Hudá por ser um dos poucos adultos a falar português fluente, frequentemente é chamada para dar entrevistas. Seu marido Wallid, ainda não conseguiu aprender o idioma, porém os filhos Hussein e Marmud estão totalmente inseridos na cultura brasileira falando bem o português e fãs do futebol.

Sobre sua adaptação no Brasil, ela disse não achar os costumes do país tão diferentes dos países árabes e que é muito bom ter um lar de novo e saber que seus filhos podem brincar na rua sem mísseis sobrevoando suas cabeças. Perguntado sobre o que eles mais gostaram no Brasil, Wallid foi categórico e respondeu: a liberdade!Eles estão construindo uma Lan House, Wallid é técnico de informática, na casa onde vivem para se tornar a principal fonte de renda após o fim do Programa de Reassentamento.

Outro palestino que parece não ter encontrado grandes dificuldades em se adaptar é Mohamad Abosaif, de 25 anos, que já fala português e participa dos eventos festivos da cidade como: aulas de maracatu e samba.Ele mora com os pais e irmãos e a família possui uma oficina de costura. Porém é no futebol que Mohamad vê uma carreira promissora.

Atualmente, participa de um período de testes em um time mineiro e ficará longe de casa por pelo menos 3 meses até que saia o resultado final.Apesar da esperança, ele está preparado caso o resultado não seja o esperado, vai voltar a trabalhar em sua oficina e seguir a vida de microempresário.

Refugiado luta para trazer filho da Faixa de Gaza


Entre os muitos dramas dos refugiados, um se destaca.Rossam Kalil luta todos os dias para trazer seu filho de nove anos que está na Faixa de Gaza.

Segundo ele foi prometido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados que assim que chegasse ao país seu filho viria em seguida.Mas já se passou um ano e nove meses, e nada da criança chegar

Em entrevista exclusiva, ele fala do desespero que sente toda vez que acontece algum atentado em Gaza e manda um recado para o presidente do ACNUR, Ravier Cifuentes.

"Só tem uma coisa que quero dizer a Ravier, quero que ele veja que meu filho está morrendo na frente dele, ele está olhando e não faz nada.Quero que ele saiba o que estou sentindo, para sentir o que estou passando."

Em nota a ACNUR respondeu que este caso está sendo analisado junto com outros órgãos internacionais.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Brasil recebe refugiados palestinos


Entre setembro e outubro de 2007, o Brasil recebeu cerca de 107 refugiados palestinos vindos do campo de Rweished, na fronteira entre a Jordânia e o Iraque.

Por Juliane Almeida

A vinda do grupo foi possível com o Programa de Reassentamento Solidário do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). O campo abrigava os palestinos que já viviam refugiados no Iraque sob a proteção de Saddam Hussein, porém tiveram que se retirar quando ele foi morto em 2003. Desde esta época, eles viviam em tendas no deserto, cercados pelo exército jordaniano.

O Programa é implementado pelo governo do Brasil, com o apoio da comunidade internacional, por meio do ACNUR e da sociedade civil. Atualmente, cerca de 400 refugiados são beneficiados.
Com recursos dos doadores internacionais, o ACNUR contrata ONGs para prestar assistências aos refugiados. Os refugiados recebem assistência financeira, moradia, assistência social e acompanhamento médico.

O programa de Reassentamento Solidário do Acnur com duração de 2 anos, ainda conta com o apoio do Governo Federal, representado pelo Comitê Nacional para Refugiados (CONARE).
No Brasil este grupo ficou dividido entre as regiões Sul e Sudeste. A cidade de Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo foi escolhida para receber 57 refugiados palestinos do grupo que chegou ao país.

O Acnur delegou à Cáritas Brasileira de São Paulo, a responsabilidade de inserir o grupo na cidade.
Mogi das Cruzes foi escolhida por ser uma cidade com grande número de moradores de origem árabe e por ter uma mesquita. Aliás, é por intermédio do sheik Hosni que os refugiados “driblam” as dificuldades que encontram para se comunicar com os comerciantes locais.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sonhando com o retorno ao lar


Por:Soraya Misleh*

Em visita a um grupo de refugiados palestinos que vieram do Iraque nos últimos meses de 2007, recém-chegados ao Brasil após permanecerem quase cinco anos morando em tendas no meio do deserto, a expressão árabe “Sanaud” (“Nós voltaremos”) revelou a esperança, o sonho. Mais de dezoito meses se passaram desde então e o direito ao retorno ao seu pedaço de chão, reivindicado há décadas, continua a ser negado. O grupo em questão inclui vários palestinos expulsos de sua terra natal há 61 anos e outros tantos descendentes desses. Não chega a 2% do número desses refugiados no mundo: são 117 homens, mulheres e crianças, de diversas idades, que deixaram o campo de Ruweished na fronteira da Jordânia rumo ao Brasil e engrossam a estatística de 8 milhões de deslocados em função da ocupação sionista iniciada ainda antes de 1948 – quando foi fundado o Estado de Israel, em 15 de maio, mediante a expulsão de 800 mil árabes de suas casas. Para os palestinos, começava a nakba (catástrofe), uma das maiores injustiças do mundo contemporâneo, ainda sem reparação.
No mesmo ano, em 11 de dezembro, foi reconhecido pela Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), através da Resolução 194, o direito ao retorno dos palestinos e restituição de suas propriedades. Esse direito elementar – presente no artigo 13 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ironicamente aprovada em 1948 – vem desde então sendo reiterado pela comunidade internacional de tempos em tempos. Já o foi pelo menos 130 vezes pela ONU.

Não obstante, continua a produção desses excluídos, que compõem a maior e mais antiga população deslocada do globo. No recente massacre perpetrado pelo exército de Israel em Gaza, um gueto em que se amontoam em pouco mais de 300km2 1,5 milhão de palestinos – a esmagadora maioria deslocada de suas aldeias destruídas em 1948 ou descendente dos que se tornaram sem lugar de um dia para o outro –, nova leva engrossou as estatísticas. Conforme informou o palestino Jamal Juma, ativista da ONG Stop the Wall, durante conversa com jornalistas no Fórum Social Mundial 2009, como resultado das três semanas de intensos ataques entre dezembro de 2009 e janeiro deste ano, naquela pequena faixa foram destruídas 44 mil casas e “serão necessários 20 anos para a reconstrução”. Ele concluiu: “Setenta mil famílias viverão em barracas por pelo menos dez anos.” Segundo divulga a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos, a UNRWA (The United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East), em Gaza encontram-se oito dos seus 58 campos de refugiados oficiais, em que se reúnem cerca de 495 mil de 1,3 milhão registrados morando nessas condições na região (incluindo Cisjordânia, Jordânia, Síria e Líbano).

Dos 8 milhões espalhados pelo mundo, aproximadamente 4,6 milhões estão inscritos nesse órgão. Contribui para a manutenção e elevação dessa trágica estatística a estratégia deliberada de tornar a vida dos palestinos insustentável, para que abandonem suas casas. Dentro dessa lógica, são submetidos diariamente a punições, humilhações e privações.

Expulsão e negação
Os refugiados são resultado do conjunto de iniciativas sionistas para esvaziar o território e expandir a ocupação. Um deles vivia em Cacún, uma pequena aldeia palestina de 2 mil habitantes próxima de Tulkarm (na Cisjordânia). Esta foi uma das 500 vilas destruídas em 1948, cujas famílias foram forçadas a deixar suas casas às pressas. Aos 13 anos, ele viu sua casa, a terra, as árvores, tudo sumir diante de tratores impiedosos. Vivendo no Brasil desde 1956, aos 74 anos ele sonha com a Palestina cheia de poesia e beleza de sua infância. Aquela que a ocupação sionista, com seus muros cinzentos de concreto e postos de controle, esconde e tenta apagar, sem sucesso, da memória coletiva.

A negação do direito legítimo ao retorno por parte de Israel talvez tenha a ver com essa busca, uma vez que não há argumento plausível para essa recusa. Em artigo de sua autoria intitulado “Os últimos dos excluídos” (Revista Caros Amigos, especial Oriente Médio, maio de 2009), a historiadora Arlene Clemesha destaca que “grande parte das terras das aldeias esvaziadas em 1947-49 continua vazia”. É o caso de Cacún, hoje um “parque ecológico”, onde estão as raízes desse senhor de 74 anos: meu pai. E de sua família.

Soraya Misleh* jornalista, diretora de imprensa do Instituto da Cultura Árabe e secretária de comunicação do Movimento Palestina para Tod@s